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CORREIO DO POVO

14/01/20 Por bateleur

CENÁRIO DE RETOMADA

Mesmo que nada seja feito, a economia brasileira deve seguir a sua lenta retomada em 2020. A análise é do vice-presidente da Federasul e responsável pelo Núcleo de Economia, Fernando Marchet. O administrador avalia a agenda de reformas do governo e aponta um dos principais obstáculos para a entrada de investimentos no Brasil e no RS: a falta de segurança jurídica. CEO da Bateleur Assessoria Financeira, Marchet também aborda o mercado de fusões e aquisições.

O que podemos esperar da economia brasileira em 2020?

É muito provável que, independentemente do que seja feito, o País tenha um bom ano de crescimento, entre 2,5% e 3%. Isso porque existe, hoje, um arranjo muito favorável. A retomada do emprego – e, consequentemente, da massa salarial e da renda disponível para consumo – está aliada à ociosidade de fatores na economia que possibilita uma inflação baixa mesmo com o crescimento. A inflação baixa, por sua vez, permite que o juro também permaneça baixo – e com a tendência de que continue assim por um prazo mais largo. Além disso, os canais de crédito estão desobstruídos, possibilitando uma oferta mais elevada. Este é o cenário que viabiliza um bom resultado da economia mesmo que as reformas não sejam feitas em 2020. Mas, para continuar crescendo estruturadamente no médio e no longo prazo, o Brasil precisa avançar com a agenda de reformas que já começou para garantir um crescimento por um período mais longo, de forma estruturada e em patamares mais altos. Só assim teremos uma recuperação mais efetiva de emprego, de renda e aumento de capacidade de investimento.

Quais são as reformas prioritárias para o país?

Temos uma pauta importante de reformas, mas a agenda ainda está muito dedicada à questão fiscal e a todo o seu arranjo direto e indireto. É preciso ajustar a capacidade do Estado de, pelo menos, cumprir com o seu papel básico e a reforma da Previdência foi um passo muito importante neste sentido. Diria que o próximo esforço deve ser dedicado à reforma tributária. Talvez ela não ocorra nos modelos que estão em discussão no Congresso, mas é fundamental que ela aconteça. Uma das propostas, do economista Bernard Appy, prevê um crescimento de 10 pontos percentuais no PIB como um reflexo somente da reforma tributária. Isso mostra a relevância deste tema para a economia. Também há outras reformas essenciais a serem feitas para melhorar a competitividade da economia brasileira e o ambiente de negócios para o investidor local e estrangeiro.

O Plano Mais Brasil, encaminhado ao Senado pela equipe econômica do governo, contempla essas reformas?

Ele traz três propostas de emenda à Constituição que têm como objetivo racionalizar o uso dos recursos públicos, revisar fundos públicos e alterar regras do Pacto Federativo. Seria muito importante que ele avançasse. É provável que nem tudo seja aprovado, mas o mais importante é que se tenham mais avanços do que retrocessos. Aliás, o Congresso terá um papel determinante – ele vem sendo o protagonista das reformas e possivelmente continuará sendo em 2020.

Com as reformas encaminhadas, o que ainda falta para que o País retome uma posição de destaque no cenário mundial em termos de investimentos?

Falta segurança jurídica. Não podemos mais ver o STF, em questão de poucos meses, mudando de opinião sobre temas relevantes para o País. É preciso ter regras claras para que se possa atrair investimentos de longo prazo, especialmente os estrangeiros.

E por falar em investimentos, como os investidores estão percebendo o país?

A percepção é otimista porque existe, hoje, uma aposta de que avance a agenda reformista do governo para melhorar a questão fiscal, o ambiente de negócios e a competitividade da economia brasileira. Já foram feitos ajustes com a reforma trabalhista, no governo Temer, que permitiram maior competitividade do setor privado, e são esperados avanços com a reforma tributária. O investidor, tanto o brasileiro quanto o estrangeiro, já vê essa melhora e enxerga essa perspectiva, tanto em nível nacional quanto no que se refere ao Rio Grande do Sul.

O que pensam os investidores, hoje, sobre o Estado?

As ações do governo têm sido muito bem vistas. Muitos governadores sabem o que tem que ser feito nos seus Estados, mas não vêm fazendo nada em função do alto desgaste político. O governador Eduardo Leite, por outro lado, tem enfrentado o desgaste e assumido o protagonismo ao demonstrar coragem em mexer em questões estruturais do RS. É muito comum, quando a gente conversa com o pessoal de fora do Estado ou com estrangeiros, que eles falem do nosso governador. Vejo que o pessoal está atento às medidas e às intenções do governo, e isso traz uma visão muito interessante sobre o RS.

Qual a perspectiva para a economia gaúcha em 2020?

É positiva. O Estado vem tendo algumas vantagens pontuais e vem crescendo um pouco mais do que o País como um todo. A recuperação de alguns setores – que, em nível nacional, só deve ocorrer a partir de 2020 – já vem acontecendo no RS desde o final de 2018 e durante 2019. Se forem realizadas as reformas necessárias para o País, possivelmente a gente venha a ter um crescimento ainda mais expressivo em 2021.

E quanto ao mercado de fusões e aquisições, o que podemos esperar neste ano?

É um mercado que vem melhorando desde 2017 e que já vem aquecido de 2019, com boas perspectivas para 2020. A safra de operações deve vir bastante vigorosa porque em geral essas transações têm um rito longo, que envolve visão de longo prazo. Muitas operações já devem estar em um nível de maturidade bastante significativo e prontas para serem efetivamente formalizadas e divulgadas. E não estamos falando somente de alguém vir aqui para comprar as nossas empresas, mas também das nossas empresas se associando a alguém para investir, fazendo fusões, joint ventures e outras operações que envolvem a liderança de companhias nacionais e gaúchas.

Podemos dizer que 2020 tem tudo para ser um ano positivo?

A conjugação de fatores da economia brasileira talvez seja a melhor que já tivemos em toda a história: o nível de taxa de juros, o ambiente, as reformas, a visão mais liberal de condução da economia, a preocupação em melhorar a competitividade e em deixar o Estado com o seu papel de apoio, passando o protagonismo para o setor privado – além da vontade política de fazer o que deve ser feito. O contexto favorável está aí e a perspectiva é otimista, mas é preciso trabalhar, não adianta ficar esperando. Se ficar esperando, o ano vai ser bom, haverá crescimento, mas, logo ali na frente, vamos ter anos ruins novamente.

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